quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Conto: O marido da mãe-d'água

O QUE VOCÊ VAI LER

Em viagens por todo o Nordeste brasileiro, o escritor Luís da Câmara Cascudo recolheu contos populares transmitidos e conservados de geração em geração pela oralidade.
Ao registrar por escrito essas histórias, Câmara Cascudo preocupou-se em não modificar a linguagem utilizada pelos contadores, de modo que mantivesse a originalidade e tradição oral do conto.

O marido da mãe-d'água

      Era uma vez um moço pescador muito destemido e bom que lutava com as maiores dificuldades para viver. Ultimamente o vento mudara e quase não havia peixe. Passava horas e horas na praia, com a pindaíba na mão e os peixes fugiam dele como o Diabo da cruz. O rapaz estava mesmo desanimado e dormia com fome mais das vezes.
            Numa noite de luar estava ele querendo pescar e o peixe escapulindo depois de comer a isca. A noite foi avançando, avançando, o luar ficando alvo como prata e caindo mesmo a friagem. O rapaz não queria voltar para sua casinha sem levar nem que fosse um peixinho para matar a fome.
            Já ia ficando desanimado quando começou a ouvir uma voz cantando tão bonito que era de encantar. A voz foi chegando mais perto, mais perto, e o rapaz principiou a olhar em redor para ver quem estava cantando daquele jeito. Numa ponta de pedra apareceu uma moça bonita como um anjo caído do céu, cabelo louro, olhos azuis e pele branca como uma estrangeira. Ficou com o corpo meio fora d’água cantando, cantando, os cabelos espalhados, brilhando como ouro.
            O pescador ficou todo arrepiado, mas criou coragem e disse:
            - Que desejais de um cristão, alma penada?
            A moça respondeu:
            - Não sou alma penada! Sou a Mãe-d’água! Sempre que uma pessoa me pediu alguma coisa, eu dei, mas jamais me ofereceram auxílio. Tens coragem?
            - Tenho - declarou o rapaz.
            - Queres pegar peixe?
            - Quero!
           - Pois sacode o anzol onde eu estou. Deves vir todas as noites até o quarto minguante e só pescar de meia-noite até o quebrar da barra.
            Abanou a mão e mergulhou, sumindo-se.
            O rapaz fez o que ela tinha aconselhado e pegou tanto peixe que amanheceu o dia e não pôde carregar tudo para casa.
            Nunca mais viu a Mãe-d’água, mas no tempo da lua, vinha pescar e foi ficando mais aliviado da pobreza. Os meses iam passando e ele ficando com saudade daquela formosura.
            Uma noite de luar, estando na pesca, ouviu o canto da Mãe-d’água e largando tudo correu na confrontação da cantiga. Quando a Mãe-d’água botou as mãos em cima da pedra o rapaz chegou para junto e, assim que ela se calou, o pescador agradeceu o benefício recebido e perguntou como pagaria tanta bondade.
            - Quer casar comigo? --- disse a Mãe-d’água.
            O rapaz nem titubeou:
            - Quero muito!
            - A Mãe-d’água deu uma risada e continuou:
           - Então vamos casar. Na noite da quinta para a sexta-feira, na outra lua, venha me buscar. Traga roupa para mim. Só traga roupa de cor branca, azul ou verde. Veja que não tenha alfinete, agulha ou coisa alguma que seja de ferro. Só tenho uma condição. Nunca arrenegue de mim nem dos meus parentes que vivem no mar. Promete?
            O rapaz, que estava enamorado por demais, prometeu tudo e deixou a Mãe-d’água, que desapareceu nas ondas e cantou até sumir.
         Na noite citada o pescador compareceu ao lugar, trazendo roupa branca, sem alfinete, agulha ou coisa que fosse de ferro. Antes de o galo cantar, a Mãe-d’água saiu do mar. O rapaz estava com um lençol bem grande, todo aberto. A Mãe-d’água era uma moça tão bonita que os olhos do rapaz ficaram encandeados. Enrolou-a no lençol e foi para casa com ela.
            Viveram com Deus e com os Santos. A casa ficou uma beleza de arrumada, com um tudo, roupa, mobília, dinheiro. Comida, água, nada faltava. O rapaz ficou rico da noite para o dia. O povo vivia assombrado com aquela felicidade que parecia milagre.
            Passou um ano, dois anos, três anos. O rapaz gostava muito da Mãe-d’água, mas de umas coisas ia se aborrecendo. A moça não tinha falta, mas na noite de quinta para a sexta-feira, sendo luar, ficava até o quebrar da barra na janela, olhando o mar. Às vezes cantava baixinho, que fazia saudade até às pedras e aos bichos do mato. Às vezes chorava devagarzinho. O rapaz tratava de consolar a mulher, mas com o correr dos tempos, acabou ficando enjoado daquela penitência e principiou a discutir com ela.
            - Deixe essa janela, mulher! Venha dormir! Deixe de fazer assombração!
       A Mãe-d’água nem respondia, chorando, cantando ou suspirando, na sina que Deus lhe dera.
           Todo mês sucedia o mesmo. O rapaz ia ficando de mal a pior.
            - Venha logo dormir, mulher presepeira! Que quizila idiota é essa? Larga essa mania de cantiga e choro virada para o mar! Você é gente ou é peixe?
        E como o melhor já possuía em casa, deu para procurar vadiação do lado de fora, chegando tarde. A Mãe-d’água recebia-o bem, não se queixando de nada e tudo ia correndo com satisfação e agrado da parte dela.
       Numa noite o rapaz foi a um baile e ficou a noite inteira dançando, animado como se fosse solteiro. Nem se lembrava da beleza que esperava por ele em casa.
            Só voltou de manhã e foi logo gritando pelo café, leite, bolos e mais coisas para comer. A Mãe-d’água fazia mais que depressa o que ele pedia, mas não vinha na rapidez do corisco.
         O mal-agradecido, sentando-se numa cadeira, de cara franzida, não tendo o que dizer, começou a resmungar:
            - Bem feito! Quem mandou casar com mulher do mar em vez de gente da terra? Bem feito! É tudo misterioso, cheio de histórias. Coisas do mar... hi... arrenego!
            Logo que disse essas palavras, a Mãe-d’água deu um gemido comprido e ficou da cor da cal da parede. Levantou as duas mãos e as águas do mar avançaram como um castigo, numa onda grande, coberta de espuma, roncando como um bicho feroz. O rapaz, morrendo de medo, deu uma carreira de veado, subindo um monte perto da casa. Lá em cima se virou para ver. Casa, varanda, cercado, animais, tudo desaparecera. No lugar estava uma lagoa muito calma, pegada a um braço de mar. Ao longe ouviu uma cantiga triste. Triste como quem está se despedindo do mundo.
            Nunca mais viu a Mãe-d’água.

Luís da Câmara Cascudo. Contos tradicionais do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 76 – 78.

Glossário
Alvo: branco, claro.
Arrenegar: sentir-se irritado com alguém ou alguma coisa; expressar aversão a algo.
Confrontação: pôr-se diante de alguém ou algo.
Corisco: faísca elétrica que se vê no céu, que pode vir acompanhada ou não de trovão; raio.
Enamorado: que se apaixonou.
Encandeado: ofuscado por luz; deslumbrado, fascinado.
Friagem: temperatura baixa.
Pindaíba: vara de pescar.
Presepeira: que é escandalosa, inconveniente.
Quebrar da barra: período pouco antes do amanhecer.
Quizila: alguma ação que chateia ou aborrece.
Titubear: ter dúvidas, hesitar, vacilar, falar sem convicção ou certeza.

Quem foi Luís da Câmara Cascudo?
Luís da Câmara Cascudo (1898 - 1986)
Luís Câmara Cascudo  nasceu em 30 de dezembro de 1898, na cidade de Natal, estado do Rio Grande do Norte. Filho único de Francisco Justino de Oliveira Cascudo, um influente coronel da Guarda Nacional, e de Ana Maria da Câmara Cascudo.
Estudou no Externato Coração de Jesus e no Colégio Santo Antônio. Chegou a cursar medicina na Bahia e no Rio de Janeiro, porém desistiu do curso e foi estudar Direito na Faculdade do Recife. Câmara Cascudo casou-se em 1929, com Dália, com quem teve dois filhos.
Câmara Cascudo trabalhou como professor, diretor de escola, secretário do Tribunal de Justiça e exerceu atividade de jornalista escrevendo crônica diária no jornal “A República” e outros veículos. Foi divulgador do integralismo e lecionou direito internacional  na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Lançou mais de 150 livros, escreveu até os últimos dias de sua vida; o primeiro livro, “Alma Patrícia”, foi lançado em 1921. Em 1939, lançou a obra “Vaqueiros e Cantadores”, livro que destacou o seu nome entre os autores que escreviam sobre a sabedoria popular.
(...)

Publicou suas obras no Brasil e no exterior, por não querer abandonar a sua terra não aceitou ser membro da Academia Brasileira de Letras, e ainda rejeitou o convite para ser reitor da Universidade de Brasília, convite feito na época pelo então presidente Juscelino. Câmara Cascudo faleceu em Natal, no dia 30 de julho de 1986.

4 comentários:

Blog da Julia disse...

VERÔ LEGAL ESSE CONTO QUANDO EU LÍ UMA PARTE JÁ QUERIA DESCOBRIR A OUTRA !!!! AMEI

Débora 5ºanoE disse...

Vero estou bem peparada para prova.
Obrigada por colocar o texto no blog

Anônimo disse...

o livro que tem esse conto é bem confuso colocaram uma história no meio da outra. Esse livro achei na biblioteca

aline

Anônimo disse...

essa historia eh uma chatice